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Um último texto

Fui acusado

Perdi minha inocência

Sem ela, não vejo mais o mundo como um piá

Tudo ficou pesado

Tudo que me fazia sentir vivo desapareceu ou me deixou

E se piá mais não sou, motivos não há pra que esse blog siga sendo alimentado

Curto e desconexo, como boa parte de tudo que está escrito aqui:

Esse é o meu adeus

Viver é bom, né?

 "A vida é boa, vocês que complicam"
A bio da Bada sempre me deixa pensativo. Em geral, ela tá certa, e, olhando pra trás agora, eu vejo que eu tive uma vida muito boa. Não só considerando os privilégios, mas também as experiências únicas que a vida me trouxe. Lugares, pessoas, aprendizados. Tive muita coisa pela qual ficar grato. Mas, como sempre, eu escrevo quando não tô bem, e não estar bem me deixa pensativo, contemplativo. Olhar pra trás e ver quanta coisa eu já fiz, quanta coisa por que estar grato, é interessante. Mas, não julguem como ingratidão quando eu digo que não é suficiente. Eu não tô vivendo no passado. Tô vivendo aqui, agora, e (muito mais do que eu gostaria de admitir) no futuro também. Temos muitas ocupações, e muitas pré-ocupações. E não ajuda estar numa cruzada de tentativa de autoconhecimento que já dura anos. Não se conhecer implica em não saber lidar, não saber o que fazer com certas coisas. Ir se conhecendo implica em odiar certas descobertas, e se frustrar com constantes tentativas de mudança, com falhas frequentes, com recaídas e reprovações. Enfim, não sei muito como continuar, mas a verdade é que a vida é boa, mas o overall não importa no momento singular. Só conseguimos aguentar até um certo ponto, em quantidade/intensidade das coisas. Só toleramos as pressões, externas e internas, até certo ponto. Só aceitamos falhar naquilo que/com que amamos até uma determinada quantidade. E esse ponto, essa quantidade, a gente desconhece. Mover ele cada vez mais adiante é resiliência, mas mesmo a resiliência tem limites, principalmente quando não nos conhecemos, quando não temos um propósito bem definido pra que estejamos vivos.
Aconteça o que acontecer, não se surpreendam. A vida segue boa. A gente que complica.

Voltas, armaduras, espaços

 Alguns anos se passaram desde que eu voltei do Rio, mas as sequelas e traumas seguem comigo. Não me entendam mal: é claro que tive momentos maravilhosos e fiz amigos que levo pra vida. Porém, a experiência como um todo, de solidão, de hostilidade, de "ter que correr atrás do sonho", tudo me fez cada vez mais isolado de mim mesmo, mais entorpecido, levando camada após camada de armaduras contra qualquer coisa que pudesse me fazer mal. Afinal, era eu contra o mundo. Um mundo que te engole sem nem fazer esforço, se deixar.

Eu precisava ser forte e jamais deixar as coisas ruins me abalar. Se eu não fizesse por mim, quem ia fazer? Me tornei duro, maquinado. Desaprendi a sentir.

Quando voltei, um alívio tomou conta de mim. Me surpreendi quando, em uma tarde de trabalho perfeitamente habitual, tive um medo paralisante. Não fazia sentido, afinal de contas. Segui meu turno, fui pra faculdade. Máquina. O medo só aumentou. Comecei a ter medo de cometer um ato contra mim. Busquei ajuda médica, fui medicado. Na semana seguinte, o médico diz: "isso foi uma crise de pânico. Caso tu não saiba, é uma consequência de uma depressão não tratada".

Estranhei.

"mas eu nunca sinto nada de ruim!"

"exatamente por isso"


Anos se passaram. Dezenas de consultas médicas. Centenas de comprimidos. Quando estável, achei melhor parar. Tive recaídas, mas Mada que exigisse a volta do tratamento psiquiátrico. Dezenas de consultas com meu psicólogo, também. Aprendizado muito lento.

"tu deveria trocar de psicólogo, não tá funcionando", ouvi. Desmenti: "funciona, mas atuando em problemas tão profundos que tu nem sabia que eu tinha"


Tenho aprendido a sentir as coisas. A nomear, a reconhecer gatilhos e motivos. Fiz avanços dos quais me orgulho. Talvez não o suficiente pra que meus diálogos internos voltem a se tornar os textos que vocês leem aqui (quem ainda lê, pelo menos).

Hoje escrevo pra lembrar, pra marcar e registrar mais uma vez:

Sentir dói. É pesado. Mas eu preciso sentir.

Eu ainda me vejo sozinho, preciso lembrar de me permitir pedir ajuda.

Mesmo me vendo sozinho, sei que aqui não sou eu contra o mundo. Não preciso ficar de guarda alta. Não devo "ser forte" acima de tudo (nem preciso do vazio que isso me traz).

Se aqui o mundo não tá contra mim, posso achar meu espaço. O mesmo espaço que tantas e tantas vezes procurei e não achei. Como nesse exato momento não acho. Na infância era o espaço emocional e social. No Rio, também o físico. Hoje, rebusco espaços que já ocupei (mas que minha ausência fez muito por me apagar). Alguns, jamais voltam (saudades, mãe).


Enfim, tenho muita coisa pela frente. Tô mal e mal engatinhando, e muito do que eu queria dizer aqui, não disse. Talvez por não saber dizer. Talvez por não saber sentir. Pode ainda ser o medo, que é uma constante. Mas escrevi, e mesmo não gostando do que escrevi, é um começo. Talvez uma retomada. Talvez um espaço reconquistado (ou em processo). Importa que escrevi.

On trust / Da confiança

 🇧🇷 Versão em português mais abaixo! 🇧🇷

Hi, everyone! Hope you're all well in this unprecedent time.
Today I was asked by the incredible Michael Landers about some specifics of how does trust builds with me. This is not a simple question, even though we do it daily without noticing it. So, as many of you may know, I'm a very, very logic person. I don't usually feel or think the same way most people do, and there are suspicions about me being on the autistic spectrum (mostly Aperger's). That said, you may wonder how many times I had to think how to behave. How many times I observed, how many times I tried, how many times I failed. During this journey, I came up with a "framework" on how to deal with trust, and, as it might be useful for someone, even if only to provoke some thoughts, here it goes:

Taking the first step


As most people have noticed, trust is a two-way relationship, and, as in every two-way relationship, there is the dilemma of starting it. It is the same dilemma of wanting to start working, but every job description asks for experience. So, what works for me is: if I want to build trust, I start building it. I take the first steps, and I start to open myself first. This way, not only other people will feel more welcome (at least usually), but I also express my intention, and this, alone, would be enough for a quick start. It can be as simple as sharing some information. Even small talk would do, in some cultures. Just start it yourself, and things will follow.

Expect the best, be prepared for the worst


This is kind of my moto, and it applies very well here. Most people are good, or, at least, want good things happening. Giving people some credit from the beginning is great way to quickly build trust. Of course, it may fail sometimes, but it takes us to the next point:

What are the real risks on trusting someone? And what are the benefits?


You can be one of these people afraid of trusting others. You might be scared of betrayal or have some strong opinions on people and reliability. That's OK, there's no right or wrong here, but risk assessment is a must. What bad can trusting someone do to you? And what good will it bring? Most of the time, the balance is positive, because trust enables connection, and connection brings not only productivity, ease of mind, etc., about who are we with. It also brings us joy. It can bring us purpose. It mostly does worth it, and something that helps balancing it is...

Trusting is not a "whole package"


It's perfectly fine to trust people for some things, but not others. The more you know people, the more you observe their behavior, the best you'll know not only who to trust, but better on what to trust. I have friends I wouldn't work with. Some of them I wouldn't lend money. That's OK, we are still great friends, and we support each other. Also, I know some people won't trust me for some things, and I'm cool with that. No one will be a hundred percent trustable to you (and if someone tries to be, I personally recommend you to be suspicious, because it most probably unveils either into deception or a toxic relationship), and there are many aspects of our life for people to be trusted (like money, relationships, work, reliability, etc.).

Self-consciousness helps


It really does. Not only knowing your strengths and flaws help you to assess on what you can be trustable, it also brings you insights on what you do expect from people, and what works with you when building trust. Knowing this is an eye-opener, I might say. It enables you to clearly communicate what you value, what are your expectations, while also enabling self-regulation of expectations (or, at least, knowing when you're expecting too much). I can share that there are times I'm not really reliable for doing some tasks on time, and I have a myriad of reasons to be this way, and so, I don't expect people to always be reliable and to fit their schedules and put their efforts on tasks that are not truly theirs. If it happens to me, I might be disappointed, but I won't take it personally, because everyone has its reasons. The same might be true for you, but you may also be the person that expects full commitment and feel betrayed if someone fails to deliver something promised. Knowing your triggers and expectations help you manage yourself. Communicating it enables more profound trust.

Communication is a thing, big time


The last positive effect I want to bring about trust is really important for me: being open avoids misinterpretation. It really hurts when someone thinks I'm doing something to hurt, or that I have a bad intention. Communicating in an open way builds the trust and the knowing I won't do anything to harm or to hurt. Being open shows I'm not evil, and it helps even for people I didn't have had contact with, but observed my actions, to see it.


If you read that far, it means you at least trust my capacity to thinking, and it's OK to disagree and discuss in the comments if you want. I hope it brings you some good!
Also, huge thanks for the SAP Academy for Engineering for giving me this opportunity to rethink and grow.


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Oi, pessoal! Como estão nesses novos tempos? Espero que bem!
Hoje eu fui questionado pelo incrível Michael Landers sobre como eu construo confiança nas pessoas. Não é uma questão simples, mesmo que a gente o faça todo dia, sem nem perceber. E, como muitos de vocês sabem, eu sou uma pessoa muito, muito lógica. Eu normalmente não sinto ou penso da mesma maneira que as outras pessoas, e há suspeitas de que eu esteja no espectro autista (provavelmente Síndrome de Asperger). Dito isso, vocês podem imaginar quantas vezes eu precisei pensar em como me comportar e responder às situações. Quantas vezes eu observei, quantas vezes eu tentei, quantas vezes eu falhei. Nessa jornada, eu inventei um "framework" pra lidar com a confiança, e, como isso pode ser útil pra alguém, mesmo que seja só pra provocar pensamentos, aqui vai:

O primeiro passo


Como a maioria já deve ter percebido, confiança é uma via de mão dupla, e, como em toda via de mão dupla, existe o dilema de como começar. É um dilema semelhante ao da pessoa querendo começar a trabalhar: pra adquirir experiência, é preciso trabalhar, mas as vagas de trabalho exigem experiência. Então, o que funciona pra mim é: se eu quero construir uma relação de confiança, eu mesmo começo construindo. Eu dou os primeiros passos, e eu começo me abrindo primeiro. Desse modo, não só a outra pessoa vai se sentir mais bem-vinda (pelo menos na maioria das vezes), como eu também tenho a oportunidade de expressar minha intenção, e isso, por si só, já seria suficiente pra desencadear um início rápido. Pode ser um gesto simples como compartilhar uma informação. Até "conversinhas de elevador" funcionam, em algumas culturas. Apenas comece você mesmo, e as coisas se desenrolam.

Espere o melhor, mas esteja preparado para o pior


Esse é praticamente o meu lema, e se aplica muito bem aqui. A maior parte das pessoas é boa, ou, pelo menos, quer coisas boas acontecendo. Dar crédito desde o princípio é uma boa maneira de construir confiança rapidamente. É óbvio que isso vai falhar algumas vezes, o que nos leva ao próximo ponto:

Quais são os riscos reais ao confiar em alguém? E quais são os benefícios?


Você pode ser uma dessas pessoas com medo de confiar nos outros. Pode estar aterrorizado sobre ser traído, ou ter opiniões fortes sobre pessoas e dependabilidade. Tudo bem, não há certo ou errado aqui, mas é necessário avaliar os riscos. Que mal pode fazer confiar em alguém? E que vantagens isso pode trazer? Na maior parte das vezes, o saldo é positivo, porque confiança permite que haja conexão, e conexão traz não somente produtividade, tranquilidade, etc., sobre com quem estamos lidando. Também nos traz alegria. Pode nos trazer propósito. Quase sempre vale a pena, e uma coisa que ajuda a mitigar os riscos é que...

Confiança não é um "pacote completo"


É perfeitamente aceitável confiar nas pessoas pra algumas coisas, mas não pra outras. Quanto mais conhecemos as pessoas, quanto mais observamos seu comportamento, melhor sabemos não só em quem confiar, mas melhor em quê confiar. Por exemplo, tenho amigos com quem eu não trabalharia. Alguns deles eu não emprestaria dinheiro. Tudo bem, ainda somos grandes amigos, e apoiamos um ao outro. Além disso, sei que pessoas não confiariam em mim pra algumas coisas, e me mantenho tranquilo com isso. Ninguém vai ser 100% confiável (e se alguém tentar, eu recomendaria que mantenha os olhos bem abertos, porque isso provavelmente vai se tornar ou uma enganação, ou um relacionamento abusivo), e há muitos aspectos da vida nos quais as pessoas podem ou não ser confiáveis (como dinheiro, relacionamentos, trabalho, dependabilidade, etc.).

Autoconhecimento ajuda


Realmente ajuda. Não só saber seus pontos fortes e suas falhas te ajuda a perceber em que você pode ser confiável, como também traz a visão daquilo que você espera das pessoas, e do que funciona pra que construa confiança em alguém. Saber essas coisas te abre os olhos. Isso te permite comunicar claramente o que você valoriza, quais são suas expectativas, além de também permitir que autorregule as expectativas (ou, pelo menos, saber quando está esperando demais).  Posso compartilhar que há fases em que eu não sou muito confiável para fazer alguns tipos de tarefas no tempo previsto, e eu tenho muitos motivos pra ser assim. Por isso, não espero que as pessoas sejam sempre dependíveis, nem que sempre possam doar seu tempo e esforço pra tarefas que não são verdadeiramente delas. Se isso acontece comigo, eu posso até ficar desapontado uma vez ou outras, mas jamais levaria pro lado pessoal, porque todos têm seus motivos. Você pode pensar o mesmo, ou até ser o tipo de gente que espera compromisso total e se sente traído se alguém falha em entregar algo conforme prometido. Entender seus próprios mecanismos e expectativas ajuda a coordenar a si mesmo. Comunicá-los permite construir uma confiança mais profunda.

Comunicação é mesmo muito importante


A última coisa que eu quero trazer sobre confiança conta muito pra mim: ser aberto evita má interpretação. Eu fico realmente magoado quando alguém me leva a mal, pensa que estou fazendo algo pra machucar, ou que tenho más intenções. Me comunicar abertamente ajuda a criar a confiança e a certeza de que eu não vou fazer nada com a intenção de ferir. Ser aberto mostra quem eu sou, mostra que eu não sou mau, inclusive para pessoas com quem eu tive pouco ou nenhum contato direto, mas que observaram como eu ajo.


Se leu até aqui, significa que confia ao menos na minha capacidade de raciocínio, e é OK discordar e discutir nos comentários, se quiser. Espero que te traga algo de bom!
Por fim, meu muito obrigado pra SAP Academy for Engineering, por me dar essa oportunidade de pensar sobre tudo isso novamente e crescer com isso.

Blackbird

Tenho andado longe.
Não, não é música do Cartolas, muito embora Preto e Branco seja a música que mais se aproxima da minha vida hoje.
A verdade é que, inconsciente mas desejosamente, me isolei.
Me isolei até de gente bem próxima, reconheço.
Sinto falta de várias dessas pessoas, inclusive.
Entretanto, tenho vivido mais feliz nesse isolamento.
Os últimos dias têm sido de eu com a minha vida, eu fazendo o que quero e/ou preciso fazer.
Os últimos dias têm sido mais meus.
Tenho dado menos explicações (o que chateia algumas pessoas, eu sei, perdão por isso).
Tenho estado mais leve.
Tenho gastado menos, mesmo saindo mais.
Tenho vivido mais, mesmo que só.
Tenho aproveitado a minha companhia, como não aproveitava desde a infância.
Tenho me conhecido e, me conhecendo, apreciado ser quem sou.
Meus valores estão cada vez mais claros.
Cada vez mais me anojo com a humanidade.
Temos um potencial infinito de criar o bem e espalhar o amor (e, reconheço, muitos o fazem).
Vivemos, entretanto, num mundo em que imperam o dinheiro, o poder, as convenções sociais.
Isso não cabe mais na minha concepção de mundo.
Dinheiro foi uma invenção boa, útil, quando não era um deus.
Hoje, quase tudo que fazemos é pelo dinheiro.
O poder é outra coisa angustiante.
Milhões de pessoas são mantidas emburrecidas, miseráveis, sem saúde nem grandes condições de melhoria.
Que grande surpresa seria inverter as relações de poder, não?
Por fim, convenções sociais.
Não aceito mais ninguém me dizendo o que é ou não aceitável fazer.
Tenho fortes discussões com quem me diz o que pensa baseado em seus valores, desde que esses tenham a visão de que são os seus valores, não os meus.
Isso me estimula, inclusive.
Mas não aceito muito mais julgamentos.
Deixo que digam, que pensem, que falem.
Sigo fazendo da minha forma.
E vou seguir do mesmo jeito, enquanto o aprendizado não muda meus jeitos.
Estou feliz que, aos poucos, definições de gênero, sexualidade e etc estejam caindo por terra.
Da mesma forma, estou extremamente agradado pela crescente (ainda que pequena) aceitação de outras formas de se relacionar.
Vejo amizades coloridas, poliamores, alguns tipos de relação cujo rótulo nem foi inventado (ainda).
É como ver cores pouco usadas entrando, aos poucos, na normalidade do mundo.
Às vezes, é como enxergar novas cores, como aquelas pessoas com o 4º tipo de cones nos olhos.
Aos poucos, me livro do que me pesa.
Aos poucos, me livro do que me prende.
E, quando menos se espera, eu alço voo.
Tomo meu rumo a territórios ainda inexplorados

Fé, Fidelidade, Felicidade

    Tanto fé quanto fidelidade têm a origem do latim "fides", que também se traduz como confiança. Assim sendo, fiel é aquele em quem sua fé pode ser depositada.
    Sabemos o que é fé, e sabemos o que significa depositá-la, mas, o que define a possibilidade de a depositarmos ou não? Creio que isso exija uma clarificação maior do conceito que usamos para a fé, um tanto diferente do original.
    Fé, seja em alguém, seja em uma entidade superior, é, para nós, uma medida de desespero, e também de calma. É confiar parte de nosso bem estar a algo ou alguém, e esperar sinceramente que esse algo ou alguém não nos decepcione, não traia essa confiança.
    Isso nos traz mais conceitos para se pensar. O que nos decepciona é algo muito pessoal, e da mesma forma passa a ser o significado de traição. Sendo assim, tão pessoal, é impossível que a outra pessoa conheça por completo a nossa definição, dado que há diferenças, e, portanto, que haja inteira concordância. Em outras palavras, nunca seremos plenamente atendidos em nossa fé e, portanto, ninguém nunca será realmente fiel, por mais próximo que chegue.
    Por isso, esqueçam os relacionamentos perfeitos, as relações interpessoais de harmonia plena, a imagem ideal de situação social. Sempre haverá frustração e decepção. E não se enraiveçam com a constatação. Não são coisas inteiramente ruins. Nos basta aceitar, analisar e aprender com cada uma delas, para que as chances de frustrarmo-nos e decepcionarmo-nos seja cada vez menor.
   
    Problemas sempre existiram. Sempre existirão, sempre existiram.


    (Sobre felicidade, a raiz "felicis" se traduz como afortunado, lembrando que fortuna não se trata de dinheiro, e sim de bons acontecimentos. A tradução para o nosso conceito de felicidade seria "beatitudinem", cuja palavra derivada na língua portuguesa, beatitude, ironicamente é tida como algo afastado do conceito dado para felicidade)

 P.S.: Conversei sobre o assunto com meu querido amigo Rômulo "Jesus", e ele deixou o questionamento (ainda não respondido) "seria a beatitude palavra análoga a boa atitude?". Muito perspicaz.

"Acidistic", e daquilo que eu nunca disse aos cariocas

You have the brightest set of pencils,
even when my world is all about grayscales and sober tones.

You paint your world. You paint the entire world. Would you put your colors into mine?


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Nunca cheguei a colocar em palavras meu sentimento sobre toda essa história do Rio de Janeiro.
Acho que nem eu sei direito como é.
Sei que sinto saudade de coisas, de pessoas, de sensações que só existem lá.
Ver o sol nascendo no Arpoador parece ter um efeito mágico sobre mim.
Copacabana me fez mudar a maneira de pensar desde a primeira noite em que lá senti os pés na areia.
Mas a vida não é feita só de momentos. A vida é um contínuo, e, por isso, é impossível não lembrar dos maus bocados que por lá passei. Eu precisaria de um motivo muito mais forte se quisesse enfrentar a vida daquele jeito.
Aos cariocas da minha vida: amo vocês ♥ Nunca vou conseguir retribuir tudo o que fizeram por mim. O modo como me receberam. O quanto eu cresci nesses meses. Espero mesmo que venham me visitar, como alguns já fizeram, e espero eu dar uma pausa nos trabalhos pra ir ver como vocês estão.
Alguns começaram namoros, outros terminaram. Alguns começaram a trabalhar, outros resolveram ter uma folga. Sei de gente que tá fazendo sucesso por lá.
Porque a vida é um contínuo, e eu vou continuar vivendo.
 
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Um mundo cru.
Um pouco cruel.
Sem tratamento,
Sem cada nuance,
Sem cada detalhe.
Um mundo cru.

Nada se vê.
Nada se faz.
Nada se sente.
Um mundo cru.

Por que seria?
Digo, por que haveria de ser?
Sabendo que, num mundo cru,
Não poderia haver eu e você?!

Dos fins, dos meios, dos medos

Acho curioso como normalmente os fins não justificam os meios, mas, mesmo assim, há casos em que podemos "pular" os meios, fazermos os fins, e tudo o que havia no meio se resolve por si só.
Isso se dá em grau ainda maior para pessoas e seus medos: costuma ser um tanto quanto demorado decidir enfrentá-los, então, quando outro alguém toma a decisão no lugar da pessoa, esta logo percebe que não há mais motivo para tal medo.

Sei lá, penso dessa forma há tempos, talvez seja útil pra mais alguém. Chega de abafar.

Parágrafos de uma segunda-feira chuvosa

"Criador, por que crias a dor?", pergunta o guru dos tolos. E, logo em seguida, maldize-o, pois tem como resposta apenas o vácuo.
Mal sabe que a resposta está justo na sua ausência. Tal qual o calor, só sabemos que não há dor após termos sentido-a. E, só assim, experientes, valorizamos a sua ausência. É como uma recompensa: não trazer dor normalmente é um bom indicador em qualquer ação que tomemos, e, tão logo disso sabemos, só então avaliamos o quão bem tal ato fez.
Exatamente, meus caros: a dor foi feita para não ser sentida. E, não sentindo, sermos felizes.




Pois sois um universo, e, um universo sendo, sede expansível. Descontente-se com os limites, inclusive os por vós impostos, e lembre-se de conter em si o brilho de todas as estrelas, a ardência de cada uma delas, sem deixar de irradiar sua energia. Contenha histórias, faça com que um átimo de tempo, por mais infinitesimalmente pequeno, seja um período cuja vivência seja válida, e que válido também seja seu registro. Viva, pois sois um universo, e de que serviria um universo, senão à vida?



Estive relendo o último texto, e queria deixar registrado que, apesar de ainda não saber exatamente quem sou, creio que esteja muito mais próximo de descobrir, e que isso, por si só, não me fez feliz. Entretanto, serviu como ferramenta, como um guia, para que eu saiba direcionar minhas ações e, aí sim, ser genuinamente feliz.

Das mudanças de cidade e de vida

Eu já não sei mais direito quem sou. Sei direitinho quem eu não sou, por mais que eu às vezes reproduza alguns dos meus comportamentos antigos.
O tempo sozinho numa cidade hostil como o Rio de Janeiro (hostil pra quem não tem grana pra torrar) me endureceu, me amargou. E eu, que vivia só sorrisos e nunca encontrei dificuldades em ver motivos pra viver, me acho vazio.
"O que te fazia rir, hoje já não tem mais graça". Sei que não mudei sozinho, que o que antes me cercava hoje também está diferente. Mesmo assim, quase tudo o que antes me alargava o sorriso hoje me causa uma irritação.
Tenho estado impaciente, também. Impaciente justo por sentir falta da felicidade costumeira, por ansiar seu retorno. Mas, sem ter muito em que me abraçar, me perco em pensamentos nervosos.
Não me entendam mal, entretanto. Tenho, sim, motivos pra ser muito feliz. Tenho uma namorada maravilhosa, tenho um teto sob a minha cabeça, não passo fome, não passo frio, e as questões de sustento e futuro me vêm com uma facilidade incrível. Mas isso não me mantém ocupado, e, bem sabemos: mente ociosa é um tanto quanto perigosa.
E é nesses perigos que me perco.

P.S.: Vá em paz, Lennon. A paz que tu nunca encontrou em vida. Sei quem tu foi, e, mesmo assim, sei que tu era família. Onde quer que esteja, cuida do pai.

Aprendizado do dia

Estava eu em uma das costumeiras crises inerentes àquele que vai morar longe mas não se desvincula do local de origem, quando percebi que até hoje não sei viver um relacionamento.
Sim, eu definitivamente nasci pra amar e ser amado. Quanto a isso não restam dúvidas!
Mas, nessa minha curta experiência de alguns poucos anos de namoros, olho pra trás e percebo que em cada um deles eu buscava algo. Crescimento e experiência, na maior parte das vezes. Sexo, atenção e carinho, também. E quem não busca?
O problema é que, até então, isso suplantava a busca pela alegria mútua. Pelo aproveitamento do tempo a dois. Pela valorização dos nossos momentos.
E, pois bem, não vivi nada mais frustrante do que chegar em um final percebendo que deveríamos ter aproveitado nosso namoro.

Certamente que sou grato pelo que se passou nesses namoros, mas, percebo que é hora de me mudar. É hora de valorizar o nós mais que a busca pelo que me satisfaz em um namoro, afinal, se o nós não bastar, o relacionamento deixa de ser válido e passa a ser apenas útil.
Mais que isso, é hora de me curar de alguns defeitos patológicos e desesperadores, como a intolerância à frustração e a necessidade mórbida de aproveitar cada oportunidade que me é dada (mesmo quando as consequências não me valem de nada).
É hora de ser mais feliz.
E, ainda mais: é hora de sermos felizes ♥

A aerodinâmica do meu rosto

Estava eu na UFRJ, sentado, em um sábado deserto, esperando o ônibus que me levaria à zona sul.
Sentia o vento que batia em meu rosto e me provocava sensações agradáveis.
Lembrava da noite anterior, e da noite anterior à essa, e ria, maravilhado com a velocidade com que toda uma situação ruim transformou-se em uma aventura gostosa de ser vivida.
Eis que, de uma lufada de vento, ergue-se uma onda de areia. Ela cruza a minha frente, sem, entretanto, me tocar, e meu sorriso se alarga.
Pus-me a pensar. Lembrei-me que essa mesma areia que cruzou meu caminho, essa mesma areia sobre a qual caminho, todos os dias, pode ter estado na África, tempos atrás.
Essa mesma areia pode ter estado em Pangeia.
Esse vento que a ergueu pode ter sido um tempestuoso tufão no Japão.
Cada um dos elementos que formam a areia, o ar, e mesmo eu, podem ter se originado nos primeiros acontecimentos do universo.
Uma sensação de pertencimento me invadiu.
Pertenço a esse mundo e tudo pertence a mim, como eu pertenço a tudo.
Encontrei um pouco de mim em cada coisa, desde então.
Me reconhecer me deixa feliz e, portanto, desde esse momento sou só sorrisos.
Sou só amores.
Sou só gratidão.

Minha família se estende além do que eu posso enxergar.
Essa percepção me salvou.
Como diz meu querido amigo Carancho: "o Rio de Janeiro é uma cidade que te engole".
Pois, vai ter que me engolir!

Home is where your heart is

Conheço essa frase há tantos anos... Mas nunca ela me fez tanto sentido quanto faz agora.
Deixei meu coração no Rio Grande do Sul, in every possible way. Família, irmãos por opção, minha namorada. Costumes, paixões, modos de viver e de levar a vida. Liberdade.
Tudo isso me completa e, aqui onde hoje estou, me faz falta.
Me descubro cada dia mais obcecado por aprender tudo o que puder, logo, rápido, para, quem sabe, viabilizar um retorno antecipado à terrinha.
Ver minhas afilhadas, brincar com meu irmão (e descobrir de novo que ele cresceu e tomou meu lugar, me enchendo de orgulho). Tomar um chimarrão com a vó, ou uma Polar e um Xis Picanha com o Ozga, falando sobre tudo e sobre nada em especial. Passear pela chácara, rever a casa que um dia seria minha, mas que, por destino um tanto quanto previsível, nunca ficou pronta e, se um dia ficar, não será por nossas mãos.
Ver o dindo cantar, e eu mesmo pegar meu violão, nem que seja só pra arranhar as cordas. Gincanear ao lado de grandes mentes e, com elas, me tornar sempre mais. Ver a minha prainha, de água limpa e parcerias infinitas (mas que, outra vez o destino, cada vez em menor número).
Curtir um domingo frio com pinhão e lareira. Dar uma banda pela serra e me maravilhar com a vista. Acelerar na freeway só pra sentir o vento na cara.
Tudo isso me assalta, turbulentamente. Essas vontades que só podem se satisfazer em casa...

Mas não pensem que isso é um lamento. Longe disso, são apenas vontades! Me sinto feliz de saber que, mesmo com dificuldade tamanha, tenho a força de seguir aqui.
Não tem sido fácil, mas, percebo que também não tem sido ruim. Incompleto, apenas.
Mas sei que volto, ainda mais apto a viver, a trazer felicidade não só pra mim, a fazer o que eu gosto e ganhar dinheiro com isso, a construir e realizar sonhos dos mais diversos, sejam eles simples ou não.

Por ora, vou ali comer um algodão doce :)

Saudações

Acabo de chegar em casa.
Um dia atípico como o de hoje mereceu um final tão atípico quanto.
E o foi.

Anoiteceu.
Fui à praia. Pela primeira vez, pisei meus pés em areias cariocas.
Me exercitei. Treinei acrobacia. Percebi que perdi a força que tinha. Me alonguei. Percebi que voltei a estar curto.
Comi um xis no Quiosque do Gaúcho. Quase gaúcho, o xis. Mesmo assim, aceitável.
A trilha sonora da refeição foi Barão Vermelho. Preciso reafirmar:
"Saudações a quem tem coragem,
Aos que estão aqui pra qualquer viagem!
Não fique esperando a vida passar tão rápido!
A felicidade é um estado imaginário!"
E, para ser mais agradável, a vista da refeição foi o panorama da Baía de Guanabara. As luzes acesas, piscantes. Os picos desde Niterói ao fim do Rio de Janeiro. O Cristo Redentor (ou "Crishto", como chamam por aqui).
Vi uma estrela cadente.
Sei bem o meu desejo.



Com o perdão do sumiço, sinto que me entreguei.
Não consigo manter um diário, ou relatos em geral, porque a percepção da rotina me afoga.
Preferi viver essa rotina. Sem pensar muito no que deixo para trás, para não sofrer.
Sim, apenas finjo que nada está acontecendo, e, como que por mágica, nada acontece. O sofrimento fica de lado, só reaparecendo quando visito o meu Sul e torno à vida medíocre daqui.
Por sorte, tenho alguns bons amigos.
Por sorte, tenho o Minerva Baja pra me salvar.
(Pra quem desconhece, pesquise no Facebook e no Instagram, dê seus likes, e me deixe grato)
E, agora, por sorte, encontrei um meio de (quem diria?) estudar. Tem consumido muito tempo.

Mas não pense que os abandono. Não, isso nunca!
Apenas parei de correr atrás. Pus fim à frustração.
Espero que estejam mais felizes que eu.

10º dia

É... Dez dias passaram rápido.
E ainda acho mil motivos pra escrever.
Ainda percebo mil coisas novas, mil detalhes, mil pequenas diferenças no modo de viver.
E, claro, percebo que estou me acostumando à vida aqui.

O primeiro ponto que me grita a rápida adaptação é que não acho mais as pessoas daqui tão feias.
Não sei se é porque na UFRJ as pessoas não são feias, ao contrário da maior parte dos locais que conheci por aqui, mas o fato é que já encontrei gente bonita, e cada vez menos vejo gente feia.
As pessoas não podem mudar tão rapidamente, em tão grande quantidade.
São meus olhos.

Por falar em olhar, gosto tanto de perceber os numerosos grafittis gigantes ao longo dos viadutos, paredes de trilhos dos trens, túneis... Em qualquer mínimo espaço de parede público há um grafitti bem desenhado. Em espaços maiores, há obras de arte majestosas.
E eu penso no Pedrinho sempre que vejo os grafittis em pixel art, principalmente os de jogos que há na entrada sul do Túnel Acústico.
Ele iria gostar.

Observo isso tudo sentado dentro de um ônibus. Se eu às vezes reclamava de levar 15 minutos pra ir de casa ao trabalho no sul, aqui fico feliz quando levo 40 minutos dentro do ônibus mais 15 minutos de caminhada, percorrendo um trajeto semelhante (em comprimento) ao que eu fazia em Novo Hamburgo. Em menos de umas semana, já tive ocasião de passar 2h no ônibus, e, pior, 3h para o mesmo trajeto, sem que houvesse um incidente trancando a rodovia.
Tráfego simples, não?

E, em passagens de ônibus, meu dinheiro vai rápido. Mesmo comendo a R$2,00, o bolso se esvazia em um ritmo desgraçado! Tudo é realmente caro, e ser um desempregado não está ajudando. Bolsa de Iniciação Científica, te quero!

Eu ainda estranho as pessoas. Praticamente não há cabeludos por aqui! E, se não vejo camisetas de banda, vejo um excesso de camisetas de autopromoção, tais como "your boyfriend gave me this t-shirt", "I'm one of the best people I know" e "all the girls are dying of jealousy about my style". Há muita gente assoberbada. E eu achava que esse era um defeito tipicamente gaúcho!

 Por falar em gaúcho, tenho estado muito mais gaudério. Isso não é só porque estou aqui, afinal, já tem um tempo que venho participando mais da cultura. Mas estar aqui acentuou. Na fala, nos trejeitos, na música, e até no bairrismo (aquele maldito!). Em todo caso, estou cercado por cariocas. Se eu não for bem gaúcho, ninguém vai ser por mim!

Ah, e o sotaque carioca é bem familiar aos que assistem à televisão, bem sei. Entretanto, nunca tinha percebido o potencial que tem esse modo de falar para criar gente fanha. É muito comum encontrar vozes anasaladas por aqui. Por enquanto, ainda dói o ouvido.

Também há uma grande quantidade de fuscas azuis. Sinto falta da gurizada se soqueando (afinal, não existe isso por aqui), com aquela cumplicidade inerente ao fato de saber que o laço é tão forte que podemos até nos agredir, e tudo se mantém, sem briga, sem raiva, só amizade e parceria.

E eu vi gente de cachecol por aqui. E olha que nem chegou o inverno!
O dia estava, sim, quente. Não o calor sufocante que a umidade do sul proporciona, mas um calor seco que faz suar constantemente.
Que grande sacrifício fazia aquela guria, não?
Tudo pelo estilo?
Estética não é, assim, tão importante.

Aqui se come muito arroz e feijão, e nunca massa. Isso faz uma falta inexplicável.
Fiquei feliz comendo gnocci ("nhoque") no RU, mesmo com a diferença gritante. Fez falta aquela textura mais consistente, porque o daqui chegava a grudar na boca. Ainda assim, fui feliz.
Mas preferi ontem cozinhar uma massa ao molho dois queijos para o povo da casa onde estou hospedado. Era para ser molho três queijos, mas, inexplicavelmente, um dos queijos sumiu no caminho de volta do mercado.
Não ficou uma massa do Più Buono (e que saudade da vó cozinhando lá!), mas ficou excelente, de qualquer forma.

Ah, e falta na UFRJ um gramado legal pra deitar tranquilo depois do almoço. Os daqui não têm a tão desejada sombra.
 Nem a ainda mais desejada companhia.

E, depois de tanto escrever, ainda tenho uma reclamação. Vim para uma universidade federal muito conceituada. Não esperava chegar aqui e ver um tempo muito mal aproveitado. Não queria ver professores tendo que dizer "agora vocês vão ter que se adaptar, porque isso aqui não é mais ensino médio". A obviedade é enorme. Mesmo assim, há muita infantilidade negativa. Me entristece deveras. Mas vai ser feliz ao fim disso tudo, quando cada um tiver crescido o quanto precisar.

Bueno, bom domingo pra vocês, que o sol aqui tá lindo e eu tenho que estudar!

Desprendimento

É estranho largar tudo e mudar de vida.
É, certamente, aterrador para a maioria das visões.
Entretanto, fazê-lo é lindo.
É libertador.

Ninguém disse que seria fácil.
Mesmo assim, não é o fácil que eu almejo.
O topo nunca é fácil.

Soube desde o princípio que as complicações não viriam daqui.
Tampouco, da vida que levo aqui.
O passado é que me pesa.
Aliás, não exatamente o passado, mas o significado e as marcas que me deixou.
As pessoas que ficaram.
Mesmo assim, não é a saudade que me dói.
Aperta, mas não dói.
Sou forte, eu acho...
A dor esteve em dar tchau.
A dor está em querer viver mais e mais momentos, mas saber que se está longe demais.

É um vazio que há como preencher. Facilmente.
Não sou de tratar sintomas, entretanto.
Curas só funcionam nas causas. As consequências param por si.

Ah! Haja amor!
Haja luz!

E, disso, estou repleto ♥

500 days of reality

Things aren't exactly what they meant to be.
How could they?
But they come close.
They come closer and closer.
An asymptote.
The most beautiful one.

There's a long way in each road.
But, instead of doing what is meant to be, we do what we choose.
We do what we want.
We do what we can.
There's beauty.
I don't want a perfect life.
I want a real one.

This, my friend, is something that worths living.

Um dia excepcionalmente nostálgico

Hoje as lembranças vieram em torrente. O dia inteiro.
A Amanda não saiu da minha cabeça a maior parte do dia, e, quando não foi ela, foi o Pedrinho. Chorei, até. Vi um cara com a camiseta igual à dele, vermelha e com o sinal da paz, e foi foda.
Ah, por falar em camiseta, não vejo camisetas de banda aqui! Vejo muitas camisetas de seriados e filmes (todas estilizadas, nada das estampas padrão, com exceção da já comum camiseta do Jake, de Adventure Time), de grupos universitários (o pessoal realmente veste a camisa), e de times de futebol, mas não vejo nada referente às bandas. Estranho.
Em química, tive uma aula de física. O professor insistiu em nos ensinar a importância do anteparo nos experimentos e, obviamente, Derick, Zébi e Malevo vieram à lembrança. Dias felizes, aqueles.

A nostalgia de hoje tá me deixando num clima meio pesado. O cansaço físico também.
O sedentarismo de não precisar mais subir a lomba de casa todos os dias me deixou numa situação de adaptação mais complicada aqui, quando tenho que andar razoavelmente pra pegar o ônibus que vai pro Fundão.

Acho que isso me deixou um tanto intolerante, hoje. Ontem, adorava o modo do professor de Cálculo I dizer "bamos a graficar las funciónes". Hoje, o professor de Química, francês, falava como o Leôncio (aquele do Pica Pau), com o R arrastado até em palavras com um R entre duas vogais, além de adicionar um A no fim de cada palavra terminada em S ("moléculas-a" foi a campeã do dia em número de repetições). Não gostei, e isso se refletiu na maneira como eu não consegui prestar atenção no que ele dizia, mesmo acompanhando o assunto. Se é pra ser assim, prefiro a tia Laci chamando os "nêni-hier", que soa mais bonito.

Ah, e tava demorando pra eu ser bocó. Hoje fui. Não vi que tava chovendo, e saí de alpargata. Com sola de corda. Até agora não secou, e eu deixei na janela da área de serviço, porque no quarto, fechado, não aguentaria o cheiro. Pois é. Definido: quando for pro Sul, compro uma alpargata nova. De couro.

Agora, durmo, que é pra aguentar o dia, amanhã. Tem matéria nova, em laboratório, e de manhã!

Bixo!

Pois é, primeiro dia de aula. Rendeu.
Pessoal é legal, fui bem recebido, e não vi nem sinal de trote em toda a UFRJ. O coordenador do curso, o Casé (Prof. Carlos Dávila, tal qual meu querido professor na Liberato), se mostrou um excelente profissional tanto em abertura para conversas com os alunos quanto em competência para lidar com os demais docentes (vide causo da coordenadora que queria expulsar de sala os alunos repetentes em Cálculo I).
Pra provar que o mundo é do tamanho de um caroço de ervilha, um dos meus colegas me conhece da Mostratec do ano passado.
Ah, e, na fila do Restaurante Universitário, conheci o Johnny, aluno do último semestre da Física que está profundamente preocupado com sua telepatia descontrolada. Espero que ele aprenda a controlar, ia fazer um bem pra ele.
E, o RU. Aaaah, o RU. Me despertou amores mil! Com uma fila que está facilmente justificada em proporções, é um lugar limpo e organizado em que pessoas simpáticas e competentes te servem um prato variado, saudável e muito bem servido por apenas R$2,00. A Danúbia me falava que era bom, mas eu não tinha parâmetros até experimentar. Arroz integral de restaurante bem feito? Nunca tinha visto! E com salada, suco e fruta pra completar.
Mas, pra isso, tivemos que ir até o centro de Letras, porque o nosso RU teve um problema. Gostei da experiência de estar entre o povo de lá. Muitos hippies, rastafaris, muita gente pós-modernista, anarco-punk, todos dividindo pacífica e harmoniosamente o recinto. Além disso, vi uma exposição fotográfica de mamilos um tanto quanto interessante (e polêmica, obviamente), além da exposição fotográfico-textual que mostrava mães contando a experiência de ter filhos que se assumiram homossexuais (como foi a experiência, algumas com surpresa, outras não, mas todas histórias incríveis).
Ah, sobre isso, é obrigatório destacar que aqui no Rio as pessoas, em âmbito geral, são muito machistas. Além disso, não há toda a movimentação feminista como há em Porto Alegre e região. É uma cidade velha, portuguesa e imperial. Há muito o que evoluir.

Não é segredo pra ninguém que eu amo estar no meio de gente diferente, entre diferentes línguas e sotaques. Qual não foi minha surpresa ao descobrir que o meu professor de Cálculo I é latino, e dá aula metade em português, metade em espanhol?! Estranho foi ver o povo querendo encontrar o valor de "xix"...

E, ainda sobre aquele ponto de que as pessoas aqui prestam muito mais atenção em si mesmos que em quem os rodeia, achei incrível ver que mais da metade das pessoas sozinhas pela rua ouvem música, em qualquer lugar que se esteja. Fones de ouvido são muito comuns, apesar de não ser usual ver fones on-ear (tipo o meu Sol Republic Tracks Air, que veio com o Moto G, o que me enche de medo de usá-lo por aí).
Aliás, andar pela rua à noite aqui me parece mais seguro que em Porto Alegre. Vai entender...

Amanhã tem mais!

P.S.: Breaking News: acabo de presenciar minha primeira chuva aqui no Rio, que começou enquanto eu escrevia. Que maravilha de barulho, de refrescância! Chuva, aqui, é amor!

Um passeio na masmorra

As aulas nem começaram, e eu já comecei a estudar. Cálculo I e Computadores I. Tenho grandes pretensões, e grandes projetos.
Já cansado, resolvi fazer uma pausa. Faxinei um pouco, como de costume, e fui à rua.
Estou hospedado bem atrás do Norte Shopping e, como sou curioso, fui ver como era.
Acontece que, desavisado, não sabia que o Norte Shopping é um fenômeno à parte. É uma construção quase que como a bolsa da Hermione. Construído como uma masmorra, seu tamanho ao adentrar mais e mais profundamente é de impressionar. É tão grande que tem mais de um ponto das mesmas lojas no mesmo andar. Eles até tem um boliche. E um mercado. E uma feira de artesanato. E uma universidade.
Pois é, grande assim. E apinhado de gente. O trânsito lá dentro é complicado. Mesmo assim, tão cheio, não me senti oprimido. Aliás, em todo canto há muita gente e pouco espaço, mas a sensação de aperto é menor que o usual. Não só porque acostuma, mas também porque cada uma das pessoas que está ali está preocupada com suas próprias coisas, e não presta muita atenção. São milhões de solitários dentro da multidão. E foi incrível ver o olhar curioso dos poucos que me notaram. Parecia estar escrito em suas testas: "de onde vem esse cara, alto, cabeludo, com esse chinelo esquisito?".
Sim, aqui sou alto. É engraçado como isso é relativo. Os caras daqui são, em geral, da mesma altura ou mais baixos que eu. Mas não tem a mesma cara de piá.
E o chinelo estranho é a alpargata de sola de corda, que descobri excelente companhia de andanças por aqui.

Não vi nada de manifestação. Sei que ela reuniu muita gente em Copacabana. Também vi no noticiário alguns flashes. Achei muito simples protestar contra o governo morando em um dos edifícios residenciais do Alto Leblon. Bem cômodo.
Também acompanhei via Facebook as manifestações em Novo Hamburgo. Fiquei deveras entristecido, sabendo que a massa de manobra é grande, e que muita gente foi protestar porque acha bonito, e porque tá ruim, sem saber dar reais propostas de solução. Sem nem saber definir o problema e suas origens. Como cantou, ontem, meu amigo e dono do lugar em que estou hospedado: "mais de mil palhaços no salão".

A saudade tem sido misericordiosa comigo, mas tudo o que eu vejo me lembra alguém. A misericórdia está na ausência da dor quando vêm as lembranças.
Tenho me acostumado.

Aliás, hoje ouvi funk por aqui, pela primeira vez. Vinha ali do Complexo do Alemão. Eu Só Quero É Ser Feliz, e depois Rap das Armas, e fechou com Parara Tibum. Fiquei curioso com a variedade de vertentes do funk e da música em geral ouvida hoje. Quem estava no comando é, com certeza, uma pessoa muito eclética.

Amanhã é um novo dia. Torço pra que o trote seja aceitável. E, se não for, é claro: não aceitarei.
Vim pra ser (mais) feliz.
Tudo que não estiver alinhado a isso não pertence à minha estada aqui.