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Aprendizado do dia

Estava eu em uma das costumeiras crises inerentes àquele que vai morar longe mas não se desvincula do local de origem, quando percebi que até hoje não sei viver um relacionamento.
Sim, eu definitivamente nasci pra amar e ser amado. Quanto a isso não restam dúvidas!
Mas, nessa minha curta experiência de alguns poucos anos de namoros, olho pra trás e percebo que em cada um deles eu buscava algo. Crescimento e experiência, na maior parte das vezes. Sexo, atenção e carinho, também. E quem não busca?
O problema é que, até então, isso suplantava a busca pela alegria mútua. Pelo aproveitamento do tempo a dois. Pela valorização dos nossos momentos.
E, pois bem, não vivi nada mais frustrante do que chegar em um final percebendo que deveríamos ter aproveitado nosso namoro.

Certamente que sou grato pelo que se passou nesses namoros, mas, percebo que é hora de me mudar. É hora de valorizar o nós mais que a busca pelo que me satisfaz em um namoro, afinal, se o nós não bastar, o relacionamento deixa de ser válido e passa a ser apenas útil.
Mais que isso, é hora de me curar de alguns defeitos patológicos e desesperadores, como a intolerância à frustração e a necessidade mórbida de aproveitar cada oportunidade que me é dada (mesmo quando as consequências não me valem de nada).
É hora de ser mais feliz.
E, ainda mais: é hora de sermos felizes ♥

A aerodinâmica do meu rosto

Estava eu na UFRJ, sentado, em um sábado deserto, esperando o ônibus que me levaria à zona sul.
Sentia o vento que batia em meu rosto e me provocava sensações agradáveis.
Lembrava da noite anterior, e da noite anterior à essa, e ria, maravilhado com a velocidade com que toda uma situação ruim transformou-se em uma aventura gostosa de ser vivida.
Eis que, de uma lufada de vento, ergue-se uma onda de areia. Ela cruza a minha frente, sem, entretanto, me tocar, e meu sorriso se alarga.
Pus-me a pensar. Lembrei-me que essa mesma areia que cruzou meu caminho, essa mesma areia sobre a qual caminho, todos os dias, pode ter estado na África, tempos atrás.
Essa mesma areia pode ter estado em Pangeia.
Esse vento que a ergueu pode ter sido um tempestuoso tufão no Japão.
Cada um dos elementos que formam a areia, o ar, e mesmo eu, podem ter se originado nos primeiros acontecimentos do universo.
Uma sensação de pertencimento me invadiu.
Pertenço a esse mundo e tudo pertence a mim, como eu pertenço a tudo.
Encontrei um pouco de mim em cada coisa, desde então.
Me reconhecer me deixa feliz e, portanto, desde esse momento sou só sorrisos.
Sou só amores.
Sou só gratidão.

Minha família se estende além do que eu posso enxergar.
Essa percepção me salvou.
Como diz meu querido amigo Carancho: "o Rio de Janeiro é uma cidade que te engole".
Pois, vai ter que me engolir!

Home is where your heart is

Conheço essa frase há tantos anos... Mas nunca ela me fez tanto sentido quanto faz agora.
Deixei meu coração no Rio Grande do Sul, in every possible way. Família, irmãos por opção, minha namorada. Costumes, paixões, modos de viver e de levar a vida. Liberdade.
Tudo isso me completa e, aqui onde hoje estou, me faz falta.
Me descubro cada dia mais obcecado por aprender tudo o que puder, logo, rápido, para, quem sabe, viabilizar um retorno antecipado à terrinha.
Ver minhas afilhadas, brincar com meu irmão (e descobrir de novo que ele cresceu e tomou meu lugar, me enchendo de orgulho). Tomar um chimarrão com a vó, ou uma Polar e um Xis Picanha com o Ozga, falando sobre tudo e sobre nada em especial. Passear pela chácara, rever a casa que um dia seria minha, mas que, por destino um tanto quanto previsível, nunca ficou pronta e, se um dia ficar, não será por nossas mãos.
Ver o dindo cantar, e eu mesmo pegar meu violão, nem que seja só pra arranhar as cordas. Gincanear ao lado de grandes mentes e, com elas, me tornar sempre mais. Ver a minha prainha, de água limpa e parcerias infinitas (mas que, outra vez o destino, cada vez em menor número).
Curtir um domingo frio com pinhão e lareira. Dar uma banda pela serra e me maravilhar com a vista. Acelerar na freeway só pra sentir o vento na cara.
Tudo isso me assalta, turbulentamente. Essas vontades que só podem se satisfazer em casa...

Mas não pensem que isso é um lamento. Longe disso, são apenas vontades! Me sinto feliz de saber que, mesmo com dificuldade tamanha, tenho a força de seguir aqui.
Não tem sido fácil, mas, percebo que também não tem sido ruim. Incompleto, apenas.
Mas sei que volto, ainda mais apto a viver, a trazer felicidade não só pra mim, a fazer o que eu gosto e ganhar dinheiro com isso, a construir e realizar sonhos dos mais diversos, sejam eles simples ou não.

Por ora, vou ali comer um algodão doce :)

Saudações

Acabo de chegar em casa.
Um dia atípico como o de hoje mereceu um final tão atípico quanto.
E o foi.

Anoiteceu.
Fui à praia. Pela primeira vez, pisei meus pés em areias cariocas.
Me exercitei. Treinei acrobacia. Percebi que perdi a força que tinha. Me alonguei. Percebi que voltei a estar curto.
Comi um xis no Quiosque do Gaúcho. Quase gaúcho, o xis. Mesmo assim, aceitável.
A trilha sonora da refeição foi Barão Vermelho. Preciso reafirmar:
"Saudações a quem tem coragem,
Aos que estão aqui pra qualquer viagem!
Não fique esperando a vida passar tão rápido!
A felicidade é um estado imaginário!"
E, para ser mais agradável, a vista da refeição foi o panorama da Baía de Guanabara. As luzes acesas, piscantes. Os picos desde Niterói ao fim do Rio de Janeiro. O Cristo Redentor (ou "Crishto", como chamam por aqui).
Vi uma estrela cadente.
Sei bem o meu desejo.



Com o perdão do sumiço, sinto que me entreguei.
Não consigo manter um diário, ou relatos em geral, porque a percepção da rotina me afoga.
Preferi viver essa rotina. Sem pensar muito no que deixo para trás, para não sofrer.
Sim, apenas finjo que nada está acontecendo, e, como que por mágica, nada acontece. O sofrimento fica de lado, só reaparecendo quando visito o meu Sul e torno à vida medíocre daqui.
Por sorte, tenho alguns bons amigos.
Por sorte, tenho o Minerva Baja pra me salvar.
(Pra quem desconhece, pesquise no Facebook e no Instagram, dê seus likes, e me deixe grato)
E, agora, por sorte, encontrei um meio de (quem diria?) estudar. Tem consumido muito tempo.

Mas não pense que os abandono. Não, isso nunca!
Apenas parei de correr atrás. Pus fim à frustração.
Espero que estejam mais felizes que eu.

10º dia

É... Dez dias passaram rápido.
E ainda acho mil motivos pra escrever.
Ainda percebo mil coisas novas, mil detalhes, mil pequenas diferenças no modo de viver.
E, claro, percebo que estou me acostumando à vida aqui.

O primeiro ponto que me grita a rápida adaptação é que não acho mais as pessoas daqui tão feias.
Não sei se é porque na UFRJ as pessoas não são feias, ao contrário da maior parte dos locais que conheci por aqui, mas o fato é que já encontrei gente bonita, e cada vez menos vejo gente feia.
As pessoas não podem mudar tão rapidamente, em tão grande quantidade.
São meus olhos.

Por falar em olhar, gosto tanto de perceber os numerosos grafittis gigantes ao longo dos viadutos, paredes de trilhos dos trens, túneis... Em qualquer mínimo espaço de parede público há um grafitti bem desenhado. Em espaços maiores, há obras de arte majestosas.
E eu penso no Pedrinho sempre que vejo os grafittis em pixel art, principalmente os de jogos que há na entrada sul do Túnel Acústico.
Ele iria gostar.

Observo isso tudo sentado dentro de um ônibus. Se eu às vezes reclamava de levar 15 minutos pra ir de casa ao trabalho no sul, aqui fico feliz quando levo 40 minutos dentro do ônibus mais 15 minutos de caminhada, percorrendo um trajeto semelhante (em comprimento) ao que eu fazia em Novo Hamburgo. Em menos de umas semana, já tive ocasião de passar 2h no ônibus, e, pior, 3h para o mesmo trajeto, sem que houvesse um incidente trancando a rodovia.
Tráfego simples, não?

E, em passagens de ônibus, meu dinheiro vai rápido. Mesmo comendo a R$2,00, o bolso se esvazia em um ritmo desgraçado! Tudo é realmente caro, e ser um desempregado não está ajudando. Bolsa de Iniciação Científica, te quero!

Eu ainda estranho as pessoas. Praticamente não há cabeludos por aqui! E, se não vejo camisetas de banda, vejo um excesso de camisetas de autopromoção, tais como "your boyfriend gave me this t-shirt", "I'm one of the best people I know" e "all the girls are dying of jealousy about my style". Há muita gente assoberbada. E eu achava que esse era um defeito tipicamente gaúcho!

 Por falar em gaúcho, tenho estado muito mais gaudério. Isso não é só porque estou aqui, afinal, já tem um tempo que venho participando mais da cultura. Mas estar aqui acentuou. Na fala, nos trejeitos, na música, e até no bairrismo (aquele maldito!). Em todo caso, estou cercado por cariocas. Se eu não for bem gaúcho, ninguém vai ser por mim!

Ah, e o sotaque carioca é bem familiar aos que assistem à televisão, bem sei. Entretanto, nunca tinha percebido o potencial que tem esse modo de falar para criar gente fanha. É muito comum encontrar vozes anasaladas por aqui. Por enquanto, ainda dói o ouvido.

Também há uma grande quantidade de fuscas azuis. Sinto falta da gurizada se soqueando (afinal, não existe isso por aqui), com aquela cumplicidade inerente ao fato de saber que o laço é tão forte que podemos até nos agredir, e tudo se mantém, sem briga, sem raiva, só amizade e parceria.

E eu vi gente de cachecol por aqui. E olha que nem chegou o inverno!
O dia estava, sim, quente. Não o calor sufocante que a umidade do sul proporciona, mas um calor seco que faz suar constantemente.
Que grande sacrifício fazia aquela guria, não?
Tudo pelo estilo?
Estética não é, assim, tão importante.

Aqui se come muito arroz e feijão, e nunca massa. Isso faz uma falta inexplicável.
Fiquei feliz comendo gnocci ("nhoque") no RU, mesmo com a diferença gritante. Fez falta aquela textura mais consistente, porque o daqui chegava a grudar na boca. Ainda assim, fui feliz.
Mas preferi ontem cozinhar uma massa ao molho dois queijos para o povo da casa onde estou hospedado. Era para ser molho três queijos, mas, inexplicavelmente, um dos queijos sumiu no caminho de volta do mercado.
Não ficou uma massa do Più Buono (e que saudade da vó cozinhando lá!), mas ficou excelente, de qualquer forma.

Ah, e falta na UFRJ um gramado legal pra deitar tranquilo depois do almoço. Os daqui não têm a tão desejada sombra.
 Nem a ainda mais desejada companhia.

E, depois de tanto escrever, ainda tenho uma reclamação. Vim para uma universidade federal muito conceituada. Não esperava chegar aqui e ver um tempo muito mal aproveitado. Não queria ver professores tendo que dizer "agora vocês vão ter que se adaptar, porque isso aqui não é mais ensino médio". A obviedade é enorme. Mesmo assim, há muita infantilidade negativa. Me entristece deveras. Mas vai ser feliz ao fim disso tudo, quando cada um tiver crescido o quanto precisar.

Bueno, bom domingo pra vocês, que o sol aqui tá lindo e eu tenho que estudar!

Desprendimento

É estranho largar tudo e mudar de vida.
É, certamente, aterrador para a maioria das visões.
Entretanto, fazê-lo é lindo.
É libertador.

Ninguém disse que seria fácil.
Mesmo assim, não é o fácil que eu almejo.
O topo nunca é fácil.

Soube desde o princípio que as complicações não viriam daqui.
Tampouco, da vida que levo aqui.
O passado é que me pesa.
Aliás, não exatamente o passado, mas o significado e as marcas que me deixou.
As pessoas que ficaram.
Mesmo assim, não é a saudade que me dói.
Aperta, mas não dói.
Sou forte, eu acho...
A dor esteve em dar tchau.
A dor está em querer viver mais e mais momentos, mas saber que se está longe demais.

É um vazio que há como preencher. Facilmente.
Não sou de tratar sintomas, entretanto.
Curas só funcionam nas causas. As consequências param por si.

Ah! Haja amor!
Haja luz!

E, disso, estou repleto ♥

500 days of reality

Things aren't exactly what they meant to be.
How could they?
But they come close.
They come closer and closer.
An asymptote.
The most beautiful one.

There's a long way in each road.
But, instead of doing what is meant to be, we do what we choose.
We do what we want.
We do what we can.
There's beauty.
I don't want a perfect life.
I want a real one.

This, my friend, is something that worths living.