domingo, 22 de março de 2015

10º dia

É... Dez dias passaram rápido.
E ainda acho mil motivos pra escrever.
Ainda percebo mil coisas novas, mil detalhes, mil pequenas diferenças no modo de viver.
E, claro, percebo que estou me acostumando à vida aqui.

O primeiro ponto que me grita a rápida adaptação é que não acho mais as pessoas daqui tão feias.
Não sei se é porque na UFRJ as pessoas não são feias, ao contrário da maior parte dos locais que conheci por aqui, mas o fato é que já encontrei gente bonita, e cada vez menos vejo gente feia.
As pessoas não podem mudar tão rapidamente, em tão grande quantidade.
São meus olhos.

Por falar em olhar, gosto tanto de perceber os numerosos grafittis gigantes ao longo dos viadutos, paredes de trilhos dos trens, túneis... Em qualquer mínimo espaço de parede público há um grafitti bem desenhado. Em espaços maiores, há obras de arte majestosas.
E eu penso no Pedrinho sempre que vejo os grafittis em pixel art, principalmente os de jogos que há na entrada sul do Túnel Acústico.
Ele iria gostar.

Observo isso tudo sentado dentro de um ônibus. Se eu às vezes reclamava de levar 15 minutos pra ir de casa ao trabalho no sul, aqui fico feliz quando levo 40 minutos dentro do ônibus mais 15 minutos de caminhada, percorrendo um trajeto semelhante (em comprimento) ao que eu fazia em Novo Hamburgo. Em menos de umas semana, já tive ocasião de passar 2h no ônibus, e, pior, 3h para o mesmo trajeto, sem que houvesse um incidente trancando a rodovia.
Tráfego simples, não?

E, em passagens de ônibus, meu dinheiro vai rápido. Mesmo comendo a R$2,00, o bolso se esvazia em um ritmo desgraçado! Tudo é realmente caro, e ser um desempregado não está ajudando. Bolsa de Iniciação Científica, te quero!

Eu ainda estranho as pessoas. Praticamente não há cabeludos por aqui! E, se não vejo camisetas de banda, vejo um excesso de camisetas de autopromoção, tais como "your boyfriend gave me this t-shirt", "I'm one of the best people I know" e "all the girls are dying of jealousy about my style". Há muita gente assoberbada. E eu achava que esse era um defeito tipicamente gaúcho!

 Por falar em gaúcho, tenho estado muito mais gaudério. Isso não é só porque estou aqui, afinal, já tem um tempo que venho participando mais da cultura. Mas estar aqui acentuou. Na fala, nos trejeitos, na música, e até no bairrismo (aquele maldito!). Em todo caso, estou cercado por cariocas. Se eu não for bem gaúcho, ninguém vai ser por mim!

Ah, e o sotaque carioca é bem familiar aos que assistem à televisão, bem sei. Entretanto, nunca tinha percebido o potencial que tem esse modo de falar para criar gente fanha. É muito comum encontrar vozes anasaladas por aqui. Por enquanto, ainda dói o ouvido.

Também há uma grande quantidade de fuscas azuis. Sinto falta da gurizada se soqueando (afinal, não existe isso por aqui), com aquela cumplicidade inerente ao fato de saber que o laço é tão forte que podemos até nos agredir, e tudo se mantém, sem briga, sem raiva, só amizade e parceria.

E eu vi gente de cachecol por aqui. E olha que nem chegou o inverno!
O dia estava, sim, quente. Não o calor sufocante que a umidade do sul proporciona, mas um calor seco que faz suar constantemente.
Que grande sacrifício fazia aquela guria, não?
Tudo pelo estilo?
Estética não é, assim, tão importante.

Aqui se come muito arroz e feijão, e nunca massa. Isso faz uma falta inexplicável.
Fiquei feliz comendo gnocci ("nhoque") no RU, mesmo com a diferença gritante. Fez falta aquela textura mais consistente, porque o daqui chegava a grudar na boca. Ainda assim, fui feliz.
Mas preferi ontem cozinhar uma massa ao molho dois queijos para o povo da casa onde estou hospedado. Era para ser molho três queijos, mas, inexplicavelmente, um dos queijos sumiu no caminho de volta do mercado.
Não ficou uma massa do Più Buono (e que saudade da vó cozinhando lá!), mas ficou excelente, de qualquer forma.

Ah, e falta na UFRJ um gramado legal pra deitar tranquilo depois do almoço. Os daqui não têm a tão desejada sombra.
 Nem a ainda mais desejada companhia.

E, depois de tanto escrever, ainda tenho uma reclamação. Vim para uma universidade federal muito conceituada. Não esperava chegar aqui e ver um tempo muito mal aproveitado. Não queria ver professores tendo que dizer "agora vocês vão ter que se adaptar, porque isso aqui não é mais ensino médio". A obviedade é enorme. Mesmo assim, há muita infantilidade negativa. Me entristece deveras. Mas vai ser feliz ao fim disso tudo, quando cada um tiver crescido o quanto precisar.

Bueno, bom domingo pra vocês, que o sol aqui tá lindo e eu tenho que estudar!

Desprendimento

É estranho largar tudo e mudar de vida.
É, certamente, aterrador para a maioria das visões.
Entretanto, fazê-lo é lindo.
É libertador.

Ninguém disse que seria fácil.
Mesmo assim, não é o fácil que eu almejo.
O topo nunca é fácil.

Soube desde o princípio que as complicações não viriam daqui.
Tampouco, da vida que levo aqui.
O passado é que me pesa.
Aliás, não exatamente o passado, mas o significado e as marcas que me deixou.
As pessoas que ficaram.
Mesmo assim, não é a saudade que me dói.
Aperta, mas não dói.
Sou forte, eu acho...
A dor esteve em dar tchau.
A dor está em querer viver mais e mais momentos, mas saber que se está longe demais.

É um vazio que há como preencher. Facilmente.
Não sou de tratar sintomas, entretanto.
Curas só funcionam nas causas. As consequências param por si.

Ah! Haja amor!
Haja luz!

E, disso, estou repleto ♥

500 days of reality

Things aren't exactly what they meant to be.
How could they?
But they come close.
They come closer and closer.
An asymptote.
The most beautiful one.

There's a long way in each road.
But, instead of doing what is meant to be, we do what we choose.
We do what we want.
We do what we can.
There's beauty.
I don't want a perfect life.
I want a real one.

This, my friend, is something that worths living.

terça-feira, 17 de março de 2015

Um dia excepcionalmente nostálgico

Hoje as lembranças vieram em torrente. O dia inteiro.
A Amanda não saiu da minha cabeça a maior parte do dia, e, quando não foi ela, foi o Pedrinho. Chorei, até. Vi um cara com a camiseta igual à dele, vermelha e com o sinal da paz, e foi foda.
Ah, por falar em camiseta, não vejo camisetas de banda aqui! Vejo muitas camisetas de seriados e filmes (todas estilizadas, nada das estampas padrão, com exceção da já comum camiseta do Jake, de Adventure Time), de grupos universitários (o pessoal realmente veste a camisa), e de times de futebol, mas não vejo nada referente às bandas. Estranho.
Em química, tive uma aula de física. O professor insistiu em nos ensinar a importância do anteparo nos experimentos e, obviamente, Derick, Zébi e Malevo vieram à lembrança. Dias felizes, aqueles.

A nostalgia de hoje tá me deixando num clima meio pesado. O cansaço físico também.
O sedentarismo de não precisar mais subir a lomba de casa todos os dias me deixou numa situação de adaptação mais complicada aqui, quando tenho que andar razoavelmente pra pegar o ônibus que vai pro Fundão.

Acho que isso me deixou um tanto intolerante, hoje. Ontem, adorava o modo do professor de Cálculo I dizer "bamos a graficar las funciónes". Hoje, o professor de Química, francês, falava como o Leôncio (aquele do Pica Pau), com o R arrastado até em palavras com um R entre duas vogais, além de adicionar um A no fim de cada palavra terminada em S ("moléculas-a" foi a campeã do dia em número de repetições). Não gostei, e isso se refletiu na maneira como eu não consegui prestar atenção no que ele dizia, mesmo acompanhando o assunto. Se é pra ser assim, prefiro a tia Laci chamando os "nêni-hier", que soa mais bonito.

Ah, e tava demorando pra eu ser bocó. Hoje fui. Não vi que tava chovendo, e saí de alpargata. Com sola de corda. Até agora não secou, e eu deixei na janela da área de serviço, porque no quarto, fechado, não aguentaria o cheiro. Pois é. Definido: quando for pro Sul, compro uma alpargata nova. De couro.

Agora, durmo, que é pra aguentar o dia, amanhã. Tem matéria nova, em laboratório, e de manhã!

segunda-feira, 16 de março de 2015

Bixo!

Pois é, primeiro dia de aula. Rendeu.
Pessoal é legal, fui bem recebido, e não vi nem sinal de trote em toda a UFRJ. O coordenador do curso, o Casé (Prof. Carlos Dávila, tal qual meu querido professor na Liberato), se mostrou um excelente profissional tanto em abertura para conversas com os alunos quanto em competência para lidar com os demais docentes (vide causo da coordenadora que queria expulsar de sala os alunos repetentes em Cálculo I).
Pra provar que o mundo é do tamanho de um caroço de ervilha, um dos meus colegas me conhece da Mostratec do ano passado.
Ah, e, na fila do Restaurante Universitário, conheci o Johnny, aluno do último semestre da Física que está profundamente preocupado com sua telepatia descontrolada. Espero que ele aprenda a controlar, ia fazer um bem pra ele.
E, o RU. Aaaah, o RU. Me despertou amores mil! Com uma fila que está facilmente justificada em proporções, é um lugar limpo e organizado em que pessoas simpáticas e competentes te servem um prato variado, saudável e muito bem servido por apenas R$2,00. A Danúbia me falava que era bom, mas eu não tinha parâmetros até experimentar. Arroz integral de restaurante bem feito? Nunca tinha visto! E com salada, suco e fruta pra completar.
Mas, pra isso, tivemos que ir até o centro de Letras, porque o nosso RU teve um problema. Gostei da experiência de estar entre o povo de lá. Muitos hippies, rastafaris, muita gente pós-modernista, anarco-punk, todos dividindo pacífica e harmoniosamente o recinto. Além disso, vi uma exposição fotográfica de mamilos um tanto quanto interessante (e polêmica, obviamente), além da exposição fotográfico-textual que mostrava mães contando a experiência de ter filhos que se assumiram homossexuais (como foi a experiência, algumas com surpresa, outras não, mas todas histórias incríveis).
Ah, sobre isso, é obrigatório destacar que aqui no Rio as pessoas, em âmbito geral, são muito machistas. Além disso, não há toda a movimentação feminista como há em Porto Alegre e região. É uma cidade velha, portuguesa e imperial. Há muito o que evoluir.

Não é segredo pra ninguém que eu amo estar no meio de gente diferente, entre diferentes línguas e sotaques. Qual não foi minha surpresa ao descobrir que o meu professor de Cálculo I é latino, e dá aula metade em português, metade em espanhol?! Estranho foi ver o povo querendo encontrar o valor de "xix"...

E, ainda sobre aquele ponto de que as pessoas aqui prestam muito mais atenção em si mesmos que em quem os rodeia, achei incrível ver que mais da metade das pessoas sozinhas pela rua ouvem música, em qualquer lugar que se esteja. Fones de ouvido são muito comuns, apesar de não ser usual ver fones on-ear (tipo o meu Sol Republic Tracks Air, que veio com o Moto G, o que me enche de medo de usá-lo por aí).
Aliás, andar pela rua à noite aqui me parece mais seguro que em Porto Alegre. Vai entender...

Amanhã tem mais!

P.S.: Breaking News: acabo de presenciar minha primeira chuva aqui no Rio, que começou enquanto eu escrevia. Que maravilha de barulho, de refrescância! Chuva, aqui, é amor!

domingo, 15 de março de 2015

Um passeio na masmorra

As aulas nem começaram, e eu já comecei a estudar. Cálculo I e Computadores I. Tenho grandes pretensões, e grandes projetos.
Já cansado, resolvi fazer uma pausa. Faxinei um pouco, como de costume, e fui à rua.
Estou hospedado bem atrás do Norte Shopping e, como sou curioso, fui ver como era.
Acontece que, desavisado, não sabia que o Norte Shopping é um fenômeno à parte. É uma construção quase que como a bolsa da Hermione. Construído como uma masmorra, seu tamanho ao adentrar mais e mais profundamente é de impressionar. É tão grande que tem mais de um ponto das mesmas lojas no mesmo andar. Eles até tem um boliche. E um mercado. E uma feira de artesanato. E uma universidade.
Pois é, grande assim. E apinhado de gente. O trânsito lá dentro é complicado. Mesmo assim, tão cheio, não me senti oprimido. Aliás, em todo canto há muita gente e pouco espaço, mas a sensação de aperto é menor que o usual. Não só porque acostuma, mas também porque cada uma das pessoas que está ali está preocupada com suas próprias coisas, e não presta muita atenção. São milhões de solitários dentro da multidão. E foi incrível ver o olhar curioso dos poucos que me notaram. Parecia estar escrito em suas testas: "de onde vem esse cara, alto, cabeludo, com esse chinelo esquisito?".
Sim, aqui sou alto. É engraçado como isso é relativo. Os caras daqui são, em geral, da mesma altura ou mais baixos que eu. Mas não tem a mesma cara de piá.
E o chinelo estranho é a alpargata de sola de corda, que descobri excelente companhia de andanças por aqui.

Não vi nada de manifestação. Sei que ela reuniu muita gente em Copacabana. Também vi no noticiário alguns flashes. Achei muito simples protestar contra o governo morando em um dos edifícios residenciais do Alto Leblon. Bem cômodo.
Também acompanhei via Facebook as manifestações em Novo Hamburgo. Fiquei deveras entristecido, sabendo que a massa de manobra é grande, e que muita gente foi protestar porque acha bonito, e porque tá ruim, sem saber dar reais propostas de solução. Sem nem saber definir o problema e suas origens. Como cantou, ontem, meu amigo e dono do lugar em que estou hospedado: "mais de mil palhaços no salão".

A saudade tem sido misericordiosa comigo, mas tudo o que eu vejo me lembra alguém. A misericórdia está na ausência da dor quando vêm as lembranças.
Tenho me acostumado.

Aliás, hoje ouvi funk por aqui, pela primeira vez. Vinha ali do Complexo do Alemão. Eu Só Quero É Ser Feliz, e depois Rap das Armas, e fechou com Parara Tibum. Fiquei curioso com a variedade de vertentes do funk e da música em geral ouvida hoje. Quem estava no comando é, com certeza, uma pessoa muito eclética.

Amanhã é um novo dia. Torço pra que o trote seja aceitável. E, se não for, é claro: não aceitarei.
Vim pra ser (mais) feliz.
Tudo que não estiver alinhado a isso não pertence à minha estada aqui.

sábado, 14 de março de 2015

O Rio de Janeiro continua lindo!

Me fizeram a pergunta. Várias vezes, inclusive.
Sim, o Rio de Janeiro continua lindo.
E, tu vê, nunca estive aqui antes.
Depois do que eu vi hoje, posso afirmar categoricamente, sem nem precisar ter estado aqui antes.

Conheci o Rio bonito. O Rio apaixonante.
Também, o Rio caro. O Rio falso e aparente.
Em geral, é caro morar aqui. Mas, na Zona Sul, lugar de belezas e história, é exorbitante.
Mesmo assim, despertou em mim a paixão.
Estar no Parque Lage, passar em frente ao Jardim Botânico, passear na lagoa Rodrigo de Freitas, subir o morro, ter uma vista linda e descer na praia de São Conrado, ver a Praça Paris, passar nos Arcos da Lapa e almoçar uma das mais deliciosas refeições da minha vida ali por perto, ver as maravilhas da feirinha da Praça XV, o Paço, me entristecer de não haver barca para Cocotá hoje, mas mesmo assim, ir até lá de ônibus, e ir descendo e desbravando, sozinho (a partir da parte da Praça XV), me virando razoavelmente bem, provando novos sabores (Guaravita é ruim, mas deixa um gosto bom na boca. Nunca, sob hipótese nenhuma, peçam um mate com menta, porque não é menta de verdade, e aquele xarope que eles usam é horrível).

Esse passeio todo foi até bem rápido, desde ir até o sul até percorrer tudo e subir pra Lapa. Achei que demoraria muito mais, tanto por trânsito quanto por distância. Me enganei.

Hoje passeei no Norte Shopping, quando voltei aqui pro Del Castilho. Gostei deveras. Aliás, a imagem que temos de como as coisas são no RJ é muito deturpada. O shopping não é nem um pouco parecido com o que a gente imagina, e, muito menos, os frequentadores (ah, preconceito escroto, esse nosso!). Achei muito mais habitável que o Bourbon Novo Shopping. Sem contar que ali eu pude jogar Pump It Up! outra vez. Não pisava numa máquina há uns dois anos, e não jogo seriamente há no mínimo o dobro do tempo. Nem preciso dizer quão velho eu me senti ao quase botar os pulmões pra fora com uma só ficha, né?

Ainda nessa linha do preconceito, preciso dizer que não ouvi funk nem uma vez desde que cheguei. Em todo canto há samba. Funk fica restrito às comunidades. Ah, e praticamente não passa carro com som alto, nem se vê cara maromba com frequência. A polícia é bem mais presente não só pra violência, mas pra fazer valer a lei. Pelo menos pro cidadão. Pra eles, é outra história, pelo que ouço dizer. Não testemunhei nada, e nem espero que tenha essa oportunidade.

Ah, no Rio, se vive com fome. O cheiro de cebola, alho e coentro é constante e, por isso, a boca está sempre cheia d'água. O problema é que a alimentação é (bem) mais cara. Pobre bolso, o meu.

No momento, foguetes. Começou o fim de semana. Daqui a pouco começam alguns tiros aqui e ali, como é de praxe. Nada que me ameace.

Tô bem, e com uma excelente segunda impressão desse lugar que, afinal de contas, não é tão grande assim.


P.S.: Tudo me lembra muita gente, aqui, e a lista é grande. Mesmo assim, precisava deixar destacado que a empresa de gelo Geloso me despertou a saudade de Jesus, Luan e Bertolozzi, tal como do Derick, do Zébi e do Malevo. É, só gente boa.

sexta-feira, 13 de março de 2015

24h

Já se passou um dia. Inteirinho.
Ainda sei muito pouco, mas, ainda assim, me impressiono com a velocidade com que aprendo. Com a capacidade de localização ímpar. Logo eu, que era tão perdido. Vai saber...
Tenho vagado sozinho. Perambulado como o estranho que sou. É bom. É bonito.
O transporte público é um sonho, e, aqui, muita gente reclama. Mal sabem que a barriga aqui está bem cheia.
O custo dos alimentos é que me preocupa. Se paga muito caro por comida gordurosa e apenas deglutível. O saboreável sai caro.
Isso se dá, também, porque, em geral, o povo aqui não tem capricho.
Falta boa-vontade, e sobra má-fé. Em menos de 24h já tentaram me passar a perna incontáveis vezes. Ainda bem que sou equilibrado. Mas uma me pegou desprevenido. Conduta que sempre condenei em tempo de recepção dos bixos na Liberato é, aqui, o habitual diário e constante de quase toda a população. Espero me adaptar. Espero ser (ainda) mais paciente.

E, percebo, a cidade muda ao cair da noite. Fica mais amena, me pareceu. O dia é uma agitação complicada, com gritos e tiros. A noite é razoavelmente calma, porque está na rua quem precisa estar. O conforto do lar aqui é muito valorizado.
Aliás, todo o espaço minimamente disponível é usado como lar. Não há espaço adequado para abrigar tanta gente. Quem dirá, o comércio! Tudo é vendido na rua, e toda calçada, todo largo, toda praça, todo beco é apinhado de vendedores. Também gritantes.

Me admirei com a velocidade das coisas, aqui. Tudo tem sido mais rápido que o esperado, tanto em tempo de locomoção quanto em tempo de execução. As coisas, apesar do pouco capricho, funcionam bem.
Será que vão funcionar?

Primeiro dia na Cidade Maravilhosa

Se passou um dia.
Um dia turbulento, muito difícil de viver.
A despedida doeu, e ainda dói lembrar. Assim como doeram as despedidas de ontem.
Cheguei atordoado, rindo e chorando, num turbilhão.
Tinha trabalho a ser feito. Foco.
Num minuto, passei a não sentir. Esqueci a sensação de incompletude, que deu lugar à cautela e ao senso de urgência.
Fui à universidade com um ônibus cujo itinerário passava por Marambaia. Passava por Canoas. Passava por Taquara. Na hora, nem senti. Agora, relembrando, dói.
A cidade em si parece legal. O povo, nem tanto. Mas eu estive tão cansado, o dia inteiro, tão esgotado, que não interagi com muitas pessoas.
Deu pra perceber que aqui tudo se ganha no grito. Preciso lembrar de não ser tão quieto e fazer meu marketing pessoal valer. Clamar meus direitos. Não baixar a cabeça, e não dever pra ninguém. Até porque, dever pra carioca...

Mas essas são apenas as primeiras impressões. Apenas lapsos de uma memória fragmentada por uma oscilação entre foco no dever, e o desespero de não ter ninguém por perto.
Aliás, tem gente por perto. Muita gente. E muita gente mais gente que a gente que eu via no sul.
Mas ninguém conhecido.

E, atualmente, nem eu.