domingo, 17 de agosto de 2014

Textos que não foram, mas poderiam ter sido

Os próximos dois textos escrevi escondido. São realidades alternativas a duas situações pesadas que me ocorreram tempos atrás. Não tem porque mantê-los guardados, sem serem lidos.


Quero sumir, quero fugir, correr
Estou fechado para balanço, não dá para entender?
Você sempre retorna, tentando cobrar
O tempo que eu não tenho, o tempo que não posso dar,
E aquela ajuda que eu sempre te dei
Que, now, it's over, find your own way

Me deixe só, se for para ser assim.
Se assim for, fique longe de mim.
Não aceito mais a jaula, a prisão
A coleira tão apertada, te mordo a mão!
Uma mão que já não mais me alimenta
E que quando me afaga, só gera tormenta
Não quero mais nada disso tudo, de nós
E se negar, juro e corro após
Porque sei que se eu partir, nunca me alcançarás
Nem ao menos me encontrarás
Porque eu muito longe estarei
Naquele lugar que, você sabe, eu sempre sonhei
E que nunca tive a coragem de ir
Mas que, se eu for, sei que sempre poderei sorrir.
Que esse seja nosso último adeus.






Doente

Ela era doente.
Ela era doente, e ninguém sabia.
Escondeu tão bem que nem ela mesma chegou a descobrir, até que já não havia mais o que fazer.
E então, num lindo dia de sol e névoa, num dia com atmosfera misteriosa, descobriu. Sentiu as forças esvaindo-se, de súbito. Caiu, ante sua fraqueza. Quase pereceu.
Uma vez acordada, atada a uma cama de hospital, bipes, cliques, químicos, luzes brancas, roupas brancas, almas brancas de expressão vazia como o branco, soube que era alguém.
Percebeu, no vazio de cada um que ali estava, o quão cheia era, o quão plena e completa sempre foi.
E, mesmo em sua condição, sentiu pena de todos eles, que desperdiçam continuamente suas vidas em não viver. Lhes falta a vivacidade e o ânimo, lhes falta tudo, apesar de pensarem que não lhes falta nada.
Assim, sorriu triste.
Soube que, apesar de todo o mal que lhe afligia, estava feliz. Soube que, apesar de sua aparência tranquila, cada um dos que ali estava nada sabia de si. E isso lhe libertou.
Foi, adormecida com o melancólico sorriso de um doente livre.
Que vá em paz, plena e bela alma.

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